sexta-feira, 27 janeiro, 2023

Reminiscências: 1968 e depois

Fuga desesperada.

Por César Benjamin [*]

Fui convidado a assistir, há poucos dias, um longo documentário sobre o movimento de Maio de 1968 na França. A exibição fazia parte das atividades da greve na Universidade Federal Fluminense. Até onde consigo ver, aquele movimento, na França e nos demais países, permanece uma incógnita. Os acontecimentos não foram previstos nem mesmo pelos que vieram a liderá-los; uma vez em marcha, escaparam de todos os modelos; ganharam uma amplitude inédita, espalhando-se pelo mundo; não foram suficientemente explicados, até hoje, por nenhum analista. No debate, que se seguiu à exibição do filme, foi inevitável estabelecer algumas comparações com a atualidade, um exercício sempre cheio de riscos.

Pelo menos duas assimetrias importantes devem ser levadas em conta quando comparamos passado e presente. O passado nos aparece como um tempo condensado. Já foi decantado e filtrado pela ação seletiva da memória, que só retém os momentos e aspectos mais marcantes e mais decisivos, como aliás acontece no próprio documentário que vimos. O presente, por sua vez, decorre no tempo estendido do quotidiano. Com as tintas mais carregadas por aquela seleção, fica aberto o caminho para idealizações e caricaturas. O passado tende a parecer muito melhor ou muito pior do que, de fato, foi para os que viveram nele.

Outra assimetria é que o futuro do presente está aberto, enquanto o futuro do passado já está encerrado em uma trajetória que, vista de agora, parece ter sido a única possível. Nada sabemos sobre o nosso amanhã, mas, ao olharmos para trás, já sabemos o que aconteceu depois. Por isso, muitos livros de memórias, implícita ou explicitamente, atribuem um sentido predefinido aos acontecimentos vividos, como se o presente, tal como ele é, fosse um ponto de chegada natural: tudo aconteceu para que estivéssemos aqui, do jeito em que estamos. Assim, o passado é reduzido à condição de um “presente incompleto”, ou “presente imaturo”, o que não faz sentido nenhum. É comum, por exemplo, tentarmos extrair, de personagens antigos, posicionamentos sobre os temas de hoje, nos termos em que são debatidos hoje (recentemente saiu um livro que discute se Marx era ecologista…).

Compreender uma época é compreender a lógica de seus atores, compartilhando com eles o seu campo de possibilidades e o sentimento de um futuro aberto e desconhecido. É um exercício de imaginação, que envolve também uma certa humildade: precisamos abandonar a posição central que inconscientemente nos atribuímos. Os gregos da idade clássica chamavam épokhé o procedimento intelectual, que propunham, de suspender as crenças, afastar os juízos preexistentes, de modo a buscar um estado de repouso mental que nos deixe abertos a ver todos os ângulos de um dado fenômeno (no limite, é uma experiência impossível, mas, mesmo assim, muitíssimo instrutiva; foi retomada depois, sistematicamente, por Edmund Husserl).

Nas barcas para Niterói, a caminho da universidade, lembrei da épokhé grega. Depois, quando o filme começou, lembrei também de um livro, publicado em algum ano da década de 1960, em que um budista zen dizia mais ou menos o seguinte: vocês, ocidentais, quando querem compreender uma flor, separam suas partes e analisam sua composição química; compreendê-la, para vocês, é destruí-la; para nós, compreender uma flor é sentir-se flor, conseguir olhar o mundo com os olhos de flor.

Tentei ver assim, com crenças suspensas e olhos de flor, o documentário feito em 1968. O mais importante era tentar sentir o que aqueles personagens, todos reais, estavam sentindo. A maioria era formada por estudantes jovens. Vi, basicamente, duas coisas: para eles, a necessidade e a possibilidade de mudar a vida eram claras como uma evidência; não havia lugar para o fatalismo erudito e chique que tem prevalecido mais recentemente. Além disso, aquela geração, naquele momento – não só na ação política, mas em esferas muito mais amplas – fundiu a intenção e o gesto, o discurso e a vida, com uma radicalidade que veio a desaparecer depois, quando o espetáculo passou a prevalecer sobre a existência.

Não sei explicar a eclosão do movimento em tantos países, de forma quase simultânea. Muitas idéias, algumas incorretas, nos estimularam a lutar em 1968 aqui no Brasil. Havia a idéia de que o capitalismo brasileiro, por não ter feito as chamadas “reformas de base”, tenderia à estagnação, e nesse contexto o regime militar passaria a ser uma forma permanente de dominação, eliminando a possibilidade de uma luta institucional eficaz. Havia a crítica às antigas teses do PCB. Havia o exemplo, relativamente recente, da Revolução Cubana. A espantosa ofensiva do Tet, no Vietnã, acabara de estremecer a força militar norte-americana, incendiando a nossa imaginação. Além disso, jovens professores, artistas e jornalistas ainda tinham um lugar marginal no sistema, cujas instituições não os incorporavam, e mantinham-se por isso predispostos à contestação. Tudo isso nos estimulou.

Falando sobre 1968 e seus desdobramentos, acabei lembrando, inesperadamente, de um pequeno episódio da minha vida. Na prisão, já na década de 1970, permaneci alguns anos sem contato com outras pessoas e sem notícias do mundo exterior. O acesso a qualquer fonte de informação era proibido e ninguém tinha permissão para conversar comigo. Inconformada, minha mãe descobriu que, pela Constituição brasileira, os presos têm direito a assistência religiosa. Importunou com isso as autoridades militares. Finalmente meu tio, que era padre, recebeu permissão para visitar minha pequena cela semi-subterrânea durante meia hora. Com uma condição: não poderia me dar nenhuma notícia do mundo, a não ser as meramente familiares; a permissão era para uma assistência religiosa. A visita seria interrompida se essa prescrição fosse desrespeitada.

Ficamos fisicamente separados pelo oficial de dia e seus ajudantes. Quando o tempo caminhava para se esgotar, reparei que meu tio me olhava fixamente, como que pedindo para eu não desviar meu olhar. Senti que ele preparava algo, mas não conseguia imaginar o quê. No exato instante em que o oficial informou que o tempo acabara e fez menção de se levantar, ele mexeu os lábios sem emitir som. Pude ler as duas palavras que estavam engasgadas em sua garganta: “Saigon caiu”. Foi assim que eu soube que o Vietnã, que nos levara às ruas em 1968, finalmente vencera. Todos saíram, a pesada porta de ferro fechou novamente. Voltei a deitar no colchão, mas a infindável espera, agora, tinha pela primeira vez um sabor de vitória.

Nunca pude agradecer o gesto simples e corajoso do tio Ubiratã, que morreu algum tempo depois. O documentário sobre 1968 me fez revivê-lo.

[*] Autor de A opção brasileira (Contraponto, 1998, nona edição, ISBN: 85-85910-19-4) e Bom combate (Contraponto, 2004, ISBN: 85-85910-59-3).

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