quinta-feira, 9 fevereiro, 2023

Marx jornalista

Foto: reprodução da internet, Max quando jovem e editor da Gazeta Renana

 

Emiliano José*

O rapaz, já doutor em Filosofia.

Ser doutor, não obstante, nem sempre resolve a vida.

Precisava encontra meios de garantir o pão de cada dia.

Tais meios ainda não haviam aparecido, e isso o preocupava.

Até porque o noivado com Jenny von Westphalen arrastava-se havia seis anos, e ele estava inquieto com isso.

Karl Marx, então, pensou no jornalismo.

A conjuntura política prussiana, de nítidos contornos autoritários, o impedia de chegar à universidade.

Início de 1842.

Com apenas 23 anos, resolve encarar.

Atividade de natureza essencialmente doutrinária, parecia uma saída.

Esqueçam o jornalismo objetivo de hoje, lead, sublead, objetividade, essas modernidades nascidas ali por volta do final do século XIX.

Escreve o primeiro texto expressamente político em fevereiro de 1842: “Observações sobre o mais recente decreto prussiano sobre a censura”.

Ele o envia a Arnold Ruge, amigo do “Clube dos Doutores”, articulação liderada por Bruno Bauer.

Ruge, editor de jornais, face à conjuntura prussiana sob Frederico Guilherme IV, só consegue publicar o artigo numa coletânea editada na Suíça, no ano seguinte. Vinha assinado por “um renano”.

Dura crítica à lei de imprensa apresentada por Frederico Guilherme IV, duvida da racionalidade da censura como instrumento estatal de controle da investigação sobre a verdade.

Marx sustenta posição a ser desenvolvida com frequência nos meses seguintes: a censura é inequivocamente danosa                                                                                                  Dirá: único remédio seria a supressão dela, pois em essência é um instituto mau.

Vinha namorando o jornalismo havia algum tempo.

Primeiro passo fora dado em setembro de 1841, quando incorporou-se ao projeto Gazeta Renana.

O jornal começou a circular em primeiro de janeiro de 1842 em Colônia, à época dinâmico centro econômico e político da Renânia setentrional, cerca de 70 mil habitantes então.

Contava com uma burguesia liberal, a pretender fazer do periódico um órgão de defesa dos interesses dela, contra a política agrária  e reacionária do governo prussiano.

Não se esqueçam: a burguesia liberal ainda era capaz de ousadias dessa natureza.

Não iria tão longe em tais ousadias, como veremos.

Com a Gazeta Renana, Marx inicia colaboração regular somente em meados de 1842.

Lê em Bonn, com atenção, as atas em torno dos debates da Sexta Dieta Renana, realizada em Dusseldorf, de maio a julho de 1841.

A Dieta Renana, como as demais dietas prussianas, era um simulacro de parlamento, dominada pelos grandes proprietários fundiários.

A análise do jornalista, do nosso Karl Marx, em torno dos debates da Sexta Dieta Renana, em longa matéria, enfatiza a questão da liberdade de imprensa.

O editor repartiu a análise em várias matérias.

Ocupou seis edições da Gazeta Renana, em maio de 1842.

O trabalho de Marx para o jornal se dará durante o restante do ano, e os textos nem sempre serão assinados.

Tratará do conflito entre o arcebispo de Colônia e o governo.

Da legislação sobre o divórcio – vem de longe o debate.

Do furto da madeira pelos camponeses – dito de maneira correta, da criminalização da coleta da madeira.

Da miséria dos vinhateiros de Mosela.

Tais artigos, muitas vezes vítimas de cortes da censura, serão publicados até o início de 1843.

Os artigos tiveram repercussão, e repercussão positiva.

A ponto de os acionistas com poder de mando no jornal terem oferecido a Marx um contrato de colaboração regular, com uma renda anual nada desprezível.

Estava no mercado, não obstante um mercado para ele bastante inseguro.

Em outubro de 1842, fixa-se em Colônia, e em seguida passa a ser o redator-chefe do Gazeta Renana.

Nessa condição, desabrocharam as melhores aptidões dele.

Não era um jornalista qualquer – revelava-se um profundo conhecedor da cultura alemã.

O novo redator-chefe passou a agir com critério e rigor na seleção dos textos a serem publicados.

Nada de elucubrações filosóficas.

Passou a dar valor a matérias de cunho local e regional.

Nova linha editorial.

Não minimizava os temas teóricos-filosóficos, se pertinentes.

Não reduziu a Gazeta Renana a questões provincianas.

Mas imprimiu um rumo: com rigor, determinou prioridade a problemas da atualidade alemã.

E não se fizesse nada sem pesquisa e reflexão sérias.

Tratava o jornalismo com responsabilidade.

Rechaçava abordagens rasas.

Recusava superficialidade.

Não deixava se enganar por tentativas de publicação de artigos sem fundamentação, e recusava ideias pertinentes a outros contextos.

Barrou, por exemplo, tentativas dos jovens hegelianos de valer-se do Gazeta Renana para tematizar ideias socialistas – pertinentes na conjuntura francesa, não deviam ser contrabandeadas para o jornal sem um tratamento adequado.

Duro, Marx.

Inclusive com amigos.

Quisessem debater o comunismo, disse logo ao assumir, se empenhassem num tratamento profundo, nada de superficialidade.

Impunha o seu jeito de dirigir, de fazer jornalismo.

Me lembrei de editores rigorosos com quem convivi.

Rigorosos e atentos, a exemplo de um Sérgio de Souza, com quem tive o privilégio de trabalhar no Jornal da Bahia e na Caros Amigos.

Ou Carlos Navarro, com quem tive o privilégio de trabalhar no Estadão.

Lukács concluirá:

“O breve período em que Marx trabalhou na Gazeta Renana constitui o momento mais alto do jornalismo democrático-burguês alemão”.

À frente do jornal, Marx garantiu uma política corajosa e coerente de oposição ao governo prussiano.

Irredutível na defesa da liberdade de imprensa, nunca deixou se levar por confrontos aventureiros e irresponsáveis com o Estado prussiano – jornalista responsável, sem nunca deixar de denunciar e criticar medidas antidemocráticas.

Olhava pro lado: enfrentava e desmistificava a postura servil da imprensa oficialesca.

Brincando com as palavras, e situando devidamente o Marx de então, é possível dizer, ele ainda não era marxista.

Movia-se a rigor no marco ideológico e político democrático-burguês, como Lukács registra, insista-se.

Está certo: não reduzia a componente democrática aos limites liberais.

Não se identificava com tais limites.

Radicalizava a componente democrática.

Mas, ao situar-se no marco ideológico e político democrático-burguês, Marx pôde compatibilizar a orientação imprimida ao jornal com os interesses dos liberais renanos.

Uma tática assentada na convicção da necessidade de valer-se de todas as possibilidades de ação para desenvolver o movimento progressista.

Um editor de cabeça política, e uma cabeça política de esquerda, a caminho de uma transformação mais profunda.

O essencial, para ele, era manter a Gazeta Renana como órgão de oposição, não obstante as dificuldades impostas pelo governo, incluindo os constrangimentos da censura.

Tal orientação, tão nítida, diríamos, para insistir, de matriz democrático-burguesa radicalizada, transformou rapidamente o jornal num veículo importante da imprensa alemã.

Quando Marx assumiu o comando do jornal, em outubro de 1842, o número de assinantes chegava a 800.

Em novembro do mesmo ano, era superior ao dobro: 1.800.

E no fim de dezembro, alcançava 3.400 assinaturas, suficientes para garantir o equilíbrio financeiro da empresa.

Uma política editorial bem-sucedida.

O jornal tornava-se, sob a liderança do jovem jornalista de pouco mais de 20 anos, uma referência para a oposição liberal e uma contínua preocupação para o regime de Frederico Guilherme IV.

A experiência do jornalismo o tornou amplamente conhecido.

Em pelo menos três ambientes, torna-se famoso.

Primeiro, no dos jovens hegelianos, e também no dos intelectuais radicais de toda a Europa central.

Para eles, Marx deixava de ser apenas o protegido de Bruno Bauer, como visto durante algum tempo, para se tornar autor corajoso e polemista de mérito próprio.

Um segundo público, as autoridades prussianas.

Aqui, por agitador subversivo, sujeito sempre a perseguições e opressão.

Marx e o reino da Prússia tornaram inimigos figadais, situação a persistir até a morte dele.

E por último, Marx conquista amplo e sólido reconhecimento entre os influentes habitantes de Colônia, a metrópole da Renânia.

Reconhecimento não somente dos nascentes comunistas da cidade ou dos republicanos radicais.

Alcançava também líderes moderados.

Não apenas intelectuais boêmios marginalizados.

Chegava também a profissionais respeitados, comerciantes, banqueiros e membros da Câmara de Comércio.

O jornalista, o redator-chefe democrático-burguês conquistara a metrópole.

Soubera fazê-lo.

Tanto assim, tanta admiração e respeito, a ponto de, em 1845, quando obrigado a deixar Paris, amigos e admiradores de Colônia, convocados pelo amigo Engels, juntarem-se e mandarem uma quantia ponderável para ele poder estabelecer-se em Bruxelas.

Desde o início da atividade como redator-chefe do Gazeta Renana, Marx teve de defrontar com a ação implacável da censura.

Lembrou-me época da ditadura, no Brasil.

Do Jornal da Bahia, implacavelmente perseguido pelo tirano Antônio Carlos Magalhães.

Censura antes episódica, com Marx à frente do jornal tornou-se prática corrente.

Multiplicaram-se matérias inteiramente censuradas.

Outras, submetidas a cortes.

Pressões governamentais de variada ordem.

Insistentes procedimentos judiciais.

Conflitos permanentes com os censores, quase diários.

Isso, sem exagero, deixava Marx à beira de um ataque de nervos.

O jogo contra o jornal foi se tornando cada vez mais pesado.

Nesse combate, não houve o envolvimento apenas de Frederico Guilherme IV, rei da Prússia.

No dia 4 de janeiro de 1843, a Gazeta Renana publica artigo criticando duramente o czar Nicolau I, imperador da Rússia e Grão-Duque da Finlândia.

Ah, seu moço, o pau comeu.

O czar chamou o embaixador prussiano em Petersburgo pra uma conversa.

Exigiu: controlem a imprensa liberal de vocês.

A força do czar não era pequena.

No dia 21 de janeiro de 1843, Frederico Guilherme IV reúne o conselho de ministros, e da reunião decorre a decisão de fechar o Gazeta Renana.

O jornal tinha até março daquele ano para tomar as providências de encerramento das atividades.

Nicolau I não era apenas aliado de Frederico Guilherme IV.

Os dois eram cunhados.

Brizola costumava dizer: cunhado não é parente.

Naquele tempo, parece que sim.

Houve reação.

De Colônia, uma petição com mais de mil assinaturas, inclusive de notáveis da cidade, enviada a Berlim, solicitava a reversão da medida.

Resultou em nada.

Em 12 de fevereiro, uma assembleia de acionistas rende-se covardemente à ordem autoritária.

O jornal só circularia até o último dia de março de 1843.

Isso decepcionou Marx profundamente.

Demitiu-se.

Despediu-s do jornal e do público dele, com uma breve declaração, publicada no dia 18 de março de 1843:

“O abaixo-assinado declara que, dadas as condições em que atualmente se exerce a censura, retira-se no dia de hoje da redação da Gazeta Renana. Colônia, 17 de março de 1843”.

Foi experiência curta, a de Marx como jornalista no Gazeta Renana: de maio de 1842 a março de 1843.

Como redator-chefe, de outubro de 1842 a março de 1943.  

Nem ano completou.

Curta, porém essencial.

Ela o fez aproximar-se das condições materiais de existência.

Teve, como jornalista, de opinar sobre os chamados interesses materiais, como ele mesmo confessa.

No balanço, lembra dos Debates da Dieta Renana sobre os delitos florestais e o parcelamento da propriedade fundiária, a polêmica em torno das condições de existência dos camponeses do Mosela, as discussões sobre o livre-câmbio e o protecionismo, primeiros ganchos para se aproximar e se ocupar das questões econômicas.

O jornalismo, arrisco dizer, foi o ponto de partida de Marx para uma jornada intensa de estudo a levá-lo ao marxismo, ao que conheceríamos como tal, às geniais descobertas da gênese do capitalismo e à formulação de uma inédita perspectiva revolucionária.

Até ali, não se pode dizer fosse, no entanto, um simples liberal.

Pode-se defini-lo até então como democrata, defensor não dos interesses de classe específicos da burguesia, mas genericamente defensor dos interesses do povo.

Nos embates da Gazeta Renana, sentiu-se pouco consistente quanto aos fundamentos econômicos.

E deparou também com as limitações do liberalismo burguês, manifestadas de modo cristalino no recuo covarde diante da ofensiva contra a Gazeta Renana.

Da curta experiência jornalística, restou-lhe a consciência de profundas limitações.

Limitações dele.

Quisesse prosseguir como intelectual disposto a participar das lutas sociais – e a vida no Gazeta Renana fora de participação política e social intensas -, teria de estudar com afinco e método.

A prática jornalística revelou o despreparo dele para apreender a vida social num registro teórico rigoroso, capaz de lhe fornecer os instrumentos para agir de modo coerente e consequente.

O revolucionário ia se moldando, impulsionado pela fantástica, curta experiência jornalística.

Era necessário, urgente, qualificar-se teoricamente para compreender a vida social. Sem tal qualificação, qualquer projeto de mudança sociopolítica careceria de eficácia.

O fim do Gazeta Renana não o surpreendeu, é preciso dizer.

À frente do jornal, quase chega à exaustão.

Numa carta a Ruge, fazia confissões:

“É doloroso realizar uma tarefa servil, mesmo a serviço da liberdade, e lutar a golpes de alfinete em lugar de combater a cacetadas”.

Ia além:

“Cansei da hipocrisia, da estupidez, da autoridade brutal e também de minhas reverências obsequiosas, de andar com rodeios, das contorções e dos verbalismos”.

E conclui:

“O governo devolveu a minha liberdade”.

Esse fim, da experiência no Gazeta Renana, foi visto por ele como estímulo à pesquisa e à reflexão, como chance de se dedicar a ambas.

Para fazer isso, pesquisar e refletir, ele se apressa “em deixar a cena pública” e se recolher ao gabinete de estudos.

Tais estudos, e aqui não trataremos deles, vão conduzi-lo a um redirecionamento profundo do pensamento, garantir pudesse transitar do campo da democracia burguesa para o do radicalismo democrático e social, na direção de concepções materialistas, de onde nasceria o marxismo.

Sem superestimá-lo, cabe concluir da importância do jornalismo na vida de Marx.

Tivesse sido tão somente uma espécie de acicate no espírito de Marx, um elemento a provocar aproximação com as questões econômicas e sociais, seria muito.

Mas, foi muito mais.

Mexeu também com a concepção de Estado derivada de Hegel, e ele se vê levado a estudar, na sequência, os conflitos e contradições de classe.

Ia nascendo o Marx da economia política.

O jornalismo tem a ver com tal nascimento.

Talvez caiba breve observação.

Seria impróprio, talvez, reduzir o Marx jornalista à Gazeta Renana.

Marx, ao alçar voos teóricos muito maiores, a ponto de tornar-se um dos maiores pensadores da humanidade, aquele a desvendar os segredos do capitalismo e a pensar a revolução, não deixou de ser jornalista.

Muitos de seus textos carregam lições do período do Gazeta Renana, inegavelmente.

Pela vivacidade, clareza, interesse em ajudar o leitor a navegar.

Nunca se pedirá dele, porque impossível, qualquer imparcialidade, mito do jornalismo contemporâneo.

Tem posição, sempre.

Mas, o jornalismo o ensinou a ser sério, a pesquisar, a buscar elementos da realidade para defender qualquer posição.

Ia sempre atrás dos fatos, acompanhava a história com rigor, procedimento-padrão de qualquer jornalismo sério.

Fez sempre jornalismo de combate.

Sem superficialidade.

Entre muitos atributos, assim, ele carregará o de ser jornalista, sempre.

Ou estarei enganado?

Viva o jornalismo de combate.

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*Esse texto é tributário de monumental biografia escrita por José Paulo Netto – NETTO, José Paulo. Karl Marx : uma biografia / José Paulo Netto. – 1. ed. – São Paulo : Boitempo, 2020, 816 p. Estou no princípio da leitura. Deparei no início com o Marx jornalista e resolvi parar, valer-me desse Marx, a meu modo, fundado no autor, e dizendo de pronto não ter ele qualquer responsabilidade com o texto, por evidência. Os erros porventura encontrados, os equívocos na interpretação, devem ser atribuídos inteiramente a mim. O Marx jornalista está entre as páginas 60-66. Em alguns momentos, fui às notas – no caso desse livro, preciosas, valiosas. Biografia indispensável. A quem interessar possa.

*Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (2 volumes), entre outros

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